Enquanto a comunidade global não adota ações drásticas, alguns países fazem suas contribuições globais ao planeta, segundo o Good Country Index.

Os noruegueses abraçam o conceito de friluftsliv, que pode ser traduzido como "vida a céu aberto" — Foto: Manuel Meurisse/Unsplash

Os noruegueses abraçam o conceito de friluftsliv, que pode ser traduzido como “vida a céu aberto”

Os últimos relatórios sobre clima não são positivos: uma pesquisa recente publicada no periódico Science indica que os oceanos estão sendo aquecidos 40% mais rápido do que se pensava e cientistas do painel da ONU sobre mudanças climáticas disseram em 2018 que o aumento das temperaturas pode causar enormes inundações, secas, falta de alimentos e incêndios até 2040.

Enquanto a comunidade global não adota ações drásticas, alguns países fazem suas contribuições globais ao planeta, segundo o Good Country Index (Índice dos Bons Países, em tradução livre), que mede o impacto de cada país no mundo, como uma marca ecológica em relação à economia e às porcentagens de energia reutilizável utilizada.

“Na nossa época de globalização avançada e interdependência massiva, tudo tem um impacto no sistema inteiro, cedo ou tarde”, diz Simon Anholt, consultor independente que criou o índice.

Países europeus dominam o top 10 da sessão Planeta & Clima do Índice dos Bons Países, mas há nações no mundo inteiro tomando atitudes para reduzir seu impacto negativo no meio ambiente. A BBC conversou com moradores em cinco países de ótima performance e perguntou como é viver em um lugar que está fazendo algo para salvar o planeta.

Noruega

No topo da lista está a Noruega, líder mundial em uma série de iniciativas ambientais, incluindo a maior taxa de adoção de carros elétricos do mundo e um compromisso governamental de ser neutro em influências climáticas até 2030. Mas a relação aqui vai além da política. Os noruegueses abraçam o conceito de friluftsliv, que pode ser traduzido como “vida a céu aberto” e se refere à importância dada a passar tempo na natureza para ser saudável e feliz.

A Noruega está em primeiro lugar do Índice dos Bons Países — Foto: John O'Nolan/Unsplash

A Noruega está em primeiro lugar do Índice dos Bons Países

“Isso realmente está profundamente enraizado na nossa cultura e às vezes é quase uma religião para muitas pessoas”, disse o norueguês Axel Bentsen, fundador e CEO da Urban Sharing, a empresa por trás do popular programa de compartilhamento de bicicleta Oslo City Bike.

“Nós passamos tempo na natureza em qualquer temperatura e nossos bebês até dormem do lado de fora. Nossa capital, Oslo, é única no sentido de que você pode usar o transporte público e ir parar numa floresta, então é algo popular de se fazer antes ou depois do trabalho”.

Oslo foi nomeada a Capital Verde da Europa em 2019 pela Comissão Europeia por restaurar seus canais, investir em bicicletas e transporte público e por sua estratégia financeira climática inovadora (tornando as emissões de dióxido de carbono rastreáveis assim como fundos financeiros). A cidade também tem trabalhado para barrar carros no centro. “No último ano, tem sido ótimo ver a cidade tirando estacionamentos para tornar as áreas mais amigáveis para pedestres e ciclistas, enquanto a infraestrutura para bicicletas também melhorou com mais ciclovias”, diz Bentsen.

Apesar de 99% das fontes de energia doméstica da Noruega serem sustentáveis por meio de hidrelétricas em seu litoral, nos fiordes e nas cachoeiras, a Noruega ainda é uma grande extrativista e exportadora de petróleo, o que se tornou uma questão política controversa.

“Vale a pena manter a contínua extração e exportação de petróleo e gás porque ela gera enormes quantidades de dinheiro que são usadas para infraestrutura ambiental que não seria possível de outra maneira?”, questiona David Nikel, um expatriado britânico que vive na Noruega desde 2011 e tem um blog sobre a vida no país. “Muitos acham que o dinheiro gasto nessa infraestrutura vai inspirar outras cidades e outros países e isso levará a um mundo mais verde. Outros pensam que são dois pesos e duas medidas. Depende de que lado você está.”

Portugal

Portugal foi pioneiro no investimento em uma rede inteira de abastecimento de carros elétricos (que era grátis até recentemente), no incentivo aos seus cidadãos a instalarem painéis solares e energia renovável com preços mais baixos, além de oferecer a oportunidade de vender a energia de volta ao sistema.

“A maioria dos meus vizinhos têm painéis solares ou bomba de água. Na minha casa, meus pais instalaram essa bomba que transforma água da chuva em água potável, que usamos para aguar as plantas, lavar roupas e dar água aos nossos animais de estimação”, diz a portuguesa Mariana Magalhães, gerente de marca na agência britânica Forty8Creates.

Portugal foi um dos primeiros países a investir em uma rede inteira de estações para carros elétricos — Foto: Ricardo Resende/Unsplash

Portugal foi um dos primeiros países a investir em uma rede inteira de estações para carros elétricos

Reciclar e compostar são um modo de vida normal aqui, com lixeiras específicas em cada bairro, incluindo uma para baterias. A educação tem um enorme papel nessa transformação. “No colégio, tínhamos várias aulas de educação ambiental e frequentemente tínhamos aulas em um parque local para criar esse amor ao meio ambiente”, diz Magalhães.

Ao longo de sua história, Portugal foi uma sociedade agrária que fez uso de suas abundantes fontes naturais. “Na fronteira entre Portugal e Espanha, no Norte, você consegue ver as montanhas cheias de equipamentos de captação de energia eólica. Você também consegue ver hidrelétricas nos lagos para coletar energia da água”, diz Magalhães.

“Nós temos condições naturais que favorecem o uso de energias renováveis”, acrescentou Joana Mendes, gerente da pousada Molinum no sul de Portugal. “Já que são mais baratas, gradualmente mudamos para elas.”

Na capital portuguesa, cheia de subidas e descidas, a adoção da bicicleta não é tão forte como em outras capitais europeias, mas outros modos sustentáveis de transporte estão começando a decolar. “Alugueis de patinetes elétricas foram introduzidos em Lisboa e se tornaram muito populares”, diz a americana Wendy Werneth, que viveu em Portugal por dois anos e escreve no blog O Vegano Nômade. “Os lisboetas realmente a abraçaram como uma maneira ecológica de se transportar”.

Uruguai

No topo da lista dos países sul-americanos no índice Planeta & Clima e considerado um dos destinos mais éticos por causa de políticas socioambientais, o Uruguai se tornou um líder global de energia sustentável – tanto por necessidade quanto por respeito ao planeta.

“O Uruguai não possui reservas de petróleo e estava gastando muito dinheiro na importação. Por isso, começamos a substituir combustíveis com base de petróleo pelos de energia limpa, o que foi conquistado em menos de uma década”, diz a uruguaia-americana Lola Méndez, que escreve no blog Miss Filatelista.

Hoje, cerca de 95% da eletricidade vêm de fontes renováveis, a maioria de hidroelétricas, mas também de energia solar, eólica e biocombustíveis. “Em 2012, o Uruguai estava operando em um nível de 40% de energia renovável, então é uma mudança drástica em muito pouco tempo”, diz Méndez. O comprometimento valeu a pena, já que o país recebeu atenção mundial durante o Acordo de Paris em 2015 por causa da mudança, subsidiada pelo governo.

Além dos incentivos econômicos, os moradores têm uma conexão forte com a terra. “Os uruguaios sempre amaram e respeitaram a Tierra Madre”, diz Méndez. “Das tribos indígenas Charrua aos gaúchos que criam os milhões de gados e ovelhas”.

O transporte público (a maior parte dele mantido por eletricidade) pode ser encontrado nas grandes cidades. O Aeroporto Internacional de Carrasco, na capital de Montevidéu, também está próximo de ser totalmente sustentável com uma instalação de energia solar fotovoltaica – será o primeiro país da América Latina a ter essa estrutura.

Quênia

Com padrões climáticos extremos e frequentes períodos de seca, o Quênia já está vivendo os efeitos iniciais das mudanças climáticas. Em resposta, o governo está trabalhando para proteger sua economia extremamente dependente da agricultura por meio de um Plano de Mudanças Climáticas, se comprometendo a reduzir suas emissões de gás em 30% até 2030.

Outro esforço é a recente proibição a sacolas plásticas, a fim de proteger principalmente as fontes de águas do país. A proibição se tornou uma das mais estritas do mundo, com punição de prisão e multas altas caso moradores (ou até turistas) sejam vistos carregando uma.

No entanto, não é necessária muita intervenção do governo para proteger o ambiente. “As comunidades locais aqui têm sistemas tradicionais de proteção ambiental, e eles funcionam”, disse Faye Cuevas, que mora em Nairóbi e é vice-presidente do Fundo Internacional de Proteção Ambiental.

“A floresta de Maasai Loita é um exemplo – é uma das únicas florestas geridas por indígenas que sobraram no Quênia e é intocada, muito devido às regras locais e os sistemas tradicionais que a protegem”.

Família e meio ambiente não podem ser separados para os Maasai, uma comunidade indígena no sul do Quênia e norte da Tanzânia.

“Quando você ouve o povo Maasai se cumprimentar, há uma série de discussões. Primeiro, eles discutem o ambiente – chuva, saúde da grama, água. Então, discutem gado. E, por fim, perguntam sobre a família”, explica o queniano John Kamanga um ancião Maasai e diretor do Conservatório Soralo no Quênia. “Os mesmos princípios tradicionais são usados para gerenciar a vida – falta de saúde ambiental significa o fim das vacas, o que significa o fim das crianças, o que significa a perda de cultura ambiental e de um modo antigo de vida.”

Nova Zelândia

Líder da região Ásia-Pacífico, a Nova Zelândia leva a proteção de suas fontes naturais muito a sério, especialmente porque sua agricultura – e economia baseada no turismo – depende disso.

“Nosso país é conhecido no mundo como ‘Nova Zelândia Limpa e Verde’ e nós acoplamos nossa identidade a isso”, diz Brendan Lee, originalmente da Nova Zelândia e blogueiro do site Bren on the Road. “Os kiwis (como são chamados os neozelandeses) têm muito orgulho quando os turistas nos dizem que nossa natureza é linda.”

A Nova Zelândia está entre os principais emissores de carbono per capita principalmente devido a suas emissões de metano por causa da grande indústria de gado e ovelha, assim como uma crescente energia industrial. Mas o país criou uma coalizão de vários partidos no Parlamento para criar a Rede Zero na Nova Zelândia, um plano para mapear as políticas necessárias para serem neutros na emissão de carbono até 2050.

Apesar de a Nova Zelândia ter dois terços do tamanho do Estado americano da Califórnia, tem cerca de 10% da população americana, o que lhes dá a liberdade de se preocupar menos com questões ambientais do dia a dia, como poluição do ar ou transbordamento de aterros, comparado a outros grandes centros urbanos. Mas isso tem mudado nos últimos anos também.

“As sacolas plásticas foram banidas dos supermercados – você não vê canudos plásticos e está na moda ter uma garrafa de água reutilizável”, explica Brit Jess Tonking, que agora vive em Queenstown e trabalha na marca sustentável Sundried. “Eu levo o meio ambiente muito mais em consideração agora que vivo na Nova Zelândia. Eu reciclo tudo aqui, reduzi os produtos animais que compro e gosto de pensar que tenho um estilo de vida mais sustentável.”

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